Oitenta, diário de uma vida - de Ricardo Tomaz Alves
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Um livro é bom quando nos traz memórias que julgávamos esquecidas.
Este livro fez-me lembrar o meu primeiro conflito, a primeira vez que alguém quis deixar de ser minha amiga na escola primária, conflito que sem os meus pais não teria conseguido resolver.
Fez-me lembrar a chegada da minha irmã, o meu primeiro grande amor.
Fez-me lembrar da sensação de ter um dente de leite a abanar, da dor da queda do dente. Fez-me lembrar de odiar cortar o cabelo curto por causa dos piolhos.
Fez-me relembrar das superficialidades da escola preparatória, da primeira vez que a professora me mandou para a rua. Fez-me lembrar das mudanças no corpo, da sensação de usar aparelho, óculos, borbulhas.
Fez-me lembrar da escola secundária, a dificuldade da matemática e da química, de ter perdido o meu melhor amigo por causa de uma namorada.
Fez-me lembrar do falhanço na escolha do curso de faculdade, dos anos que perdi por ter mudado de curso.
Fez-me lembrar do meu grande amor, de descobrir que estávamos grávidos de gémeos.
Fez-me lembrar da morte dos meus avós, momento que ainda hoje me machuca.
Fez-me lembrar que não somos eternos, nem nós nem os que amamos.

O que escrevi não é spoiler, não está escrito no livro. O que está no livro são as memórias da Íris, que são diferentes das que eu escrevo.
Todos nós passamos pelas mesmas fases da vida: infância, adolescência, juventude, vida adulta. Mas cada um de nós tem as suas próprias memórias.
Tentamos fazer o nosso melhor, mas ao fim parece que poderíamos ter feito sempre muito mais. Afinal viver todos os dias cansa.

Este é um livro com uma escrita muito fácil de ler, um português muito nosso. Não é uma história completa como estamos habituados a ler, são apanhados de uma vida.

E vocês já leram? Já conhecem o livro?